Entrevista com José Luiz Aidar Prado


DOI: https://doi.org/10.18861/ic.2019.14.2.2934


Antônio Fausto Neto https://orcid.org/0000-0002-5952-3880


Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Brasil
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Aline Weschenfelder https://orcid.org/0000-0003-4299-9046


Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Brasil.


Pesquisador 1-A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil / Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Brasil e Mestrado em Engenharia Civil pela e graduou-se em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), Brasil.



ANTÔNIO FAUSTO NETO & ALINE WESCHENFELDER (A.F.N. & A.W.): Como modelos analíticos que constituem seu approach teórico dão conta do estudo de fenômenos que emergem de modo processual, no contexto da sociedade em midiatização, como é o caso de acontecimentos que envolvem as manifestações de ruas de 2013 e 2014, o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsanaro?

JOSÉ LUIZ AIDAR PRADO (J.L.A.P.): Em fenômenos de grande circulação no capitalismo comunicacional há que fazer deslocamentos em relação a modelos analíticos anteriores, que estavam mais fixados em funcionamentos de midiatização da modernidade e da pós-modernidade. Na primeira fase, tínhamos o que Mario Carlón e chama de sociedade midiática, na segunda, a sociedade pós-moderna, da cultura das mídias, já em transição para a cidade das redes (ou dos projetos, dependente das conexões, segundo Boltanski) e na terceira fase a hipermidiatização. A atual fase, ligada ao capitalismo comunicacional seria da hipermidiatização, em que as relações entre meios e sociedade não são mais verticalizadas, mas ocorrem em várias direções, com aumento da complexidade comunicacional. A circulação hipermidiatizada introduz uma dificuldade para a teoria do discurso, no sentido de que não se trata mais de entender os grandes fenômenos sociais a partir de análises concentradas em corpus isolados (uma telenovela, capas de revistas ou apenas sites isolados). Principalmente em fenômenos que envolvem disputas políticas e enfrentamentos antagonísticos, como os que você menciona na pergunta, as "mensagens" (ou semioses) circulam em todas as direções: das redes para os meios tradicionais, de volta para emissores potentes (celebridades de vários setores, youtubers, blogueiros), atravessando novamente as redes e ampliando cada vez mais a extensividade das marcas.

De qualquer forma, a teoria do discurso ainda vige quando sabemos que há vários discursos tentando dar sentido aos acontecimentos, em disputa constante de posições, como é o caso da polarização que dominou o país no período após 2013. As mensagens fake, por exemplo, que atravessam o whatsapp e o tweeter voltam aos meios tradicionais, num vai-e-vem constante. O estilo de governar do bolsonarismo é o de sempre quebrar com os sentidos ligados à verdade, à história e ao institucional (nazismo foi de esquerda, não houve ditadura, corrupção é petista, etc.). Para estudar essa circulação não basta a teoria do discurso, que deve ser conjugada a outros approaches. Meus modelos analíticos são hoje a teoria do capitalismo, a teoria do discurso, a teoria do acontecimento, a semiótica e a psicanálise. Esse modo “processual” desse novo tempo das redes deve ser encarado a partir de uma conjugação entre esses vários approaches.

A teoria do capitalismo busca entender como o valor-signo hoje é fundamental para botar em circulação as marcas e os objetos do desejo; não se pode esquecer hoje do econômico e essa é uma das principais indicações de uma obra como a de Zizek. As circulações em várias direções comunicacionais podem ser abordadas a partir dos enfoques de Carlón, Fausto Neto e Braga. A teoria do discurso, que nos dá o quadro de enfrentamentos discursivos a partir de pontos nodais como antipetismo e corrupção vem de Laclau e Mouffe. A sociedade não é segundo essa teoria um sistema fechado e deve ser estudada a partir dos antagonismos que surgem a partir dos embates entre as diferenças. A teoria do acontecimento considera que a ruptura de certos estados de coisas só se dá com a emergência de singularidades que permitem uma renovação das relações sociais a partir de uma intensidade que afeta o sensível dos corpos, abrindo a vida para novas partilhas desse sensível nos campos sociais. A semiótica tensiva e das paixões examinam a relação entre sensível e inteligível, na medida em que os discursos em disputa buscam não apenas converter mentes por persuasão, mas corpos a partir de uma convocação sensível, de uma economia pulsional. Os sujeitos, cujas posições são geradas pelos discursos aos quais respondem e neles se engajam, no pós-acontecimento, identificam-se com os pares que com eles trabalham para fazer triunfar os discursos, bem como com os líderes que escolhem para a luta. No caso da polarização brasileira, os afetos dominantes são o do percurso da cólera: indignação de direita, ódio contra o inimigo, agressividade contra as instituições e a “velha política”, etc. Bolsonaro encarnou o líder forte capaz de enfrentar o inimigo mortal petista e a corrupção. Haddad1 não foi incapaz de encarnar a força com a mesma potência, mesmo com apoio de Lula.


A.F.N. & A.W.: Você elege a categoria da circulação discursiva para descrever aspectos das eleições presidenciais de 2018, destacando-a como um locus de embates e de disputas pelos sentidos que totalizam os discursos. Você afirma: “O que comanda a referência dos discursos não é mais o fato, mas a união ao redor de imagens de ideias conservadoras unificadoras de identidades”. Então, qual seria a especificidade do trabalho da circulação na geração desta complexa estratégia de produção de sentidos, comentada em um dos seus textos (“Regime passionais do MBL na eleição presidencial de 2018”; Compós, Porto Alegre, junho de 2019).

J.L.A.P.: Essa pergunta desdobra um pouco o que eu disse na resposta anterior. Nas eleições de outubro de 2018 com a elevada circulação pelo whatsapp, coisa que não ocorreu em 2014, em que a disputa passou mais pelo Facebook, houve a existência estendida e metralhada de fake news, ligadas a um enquadramento discursivo mais amplo dentro da polarização instaurada pelas direitas, cujos pontos nodais foram antipetismo, armamento para a população, escola sem partido, anticorrupção (sempre creditada principalmente ao PT), moralização dos comportamentos. Só que o funcionamento dessa circulação de mensagens ligadas a discursos enquadradores não é apenas de ordem cognitiva, que busca convencer, mas da ordem do sensível, apelando aos sentimentos e emoções, como eu disse acima.

Daí a necessidade de uma semiótica tensiva e das paixões, pois sem entender os percursos tensivos e passionais não é possível entender como cresceu o bolsonarismo. O efeito dessa circulação é propor imagens e ideias ligadas aos discursos mais amplos, conservadores, que recusam caminhos democráticos e convocam para a construção de um novo Brasil. Diante da falta de ordem do momento, Bolsonaro propunha romper com a velha política e construir um novo Brasil, cheio de ordem, segurança, comportamentos regrados, etc. O ódio ao inimigo é o ponto nodal desses discursos na medida em que desmonta o resultado das lutas de reconhecimento, a vontade de redistribuição, de ascensão social, de liberdade sexual, de diversidade de comportamentos. A chave discursiva mais ampla desses enquadramentos é o fundamentalismo: econômico (ultraliberalismo), política (extrema direita antidemocrática), comportamental (contra aborto, escola sem partido, contra liberdade sexual, contra o protagonismo feminino, contra a luta LGBT, etc.).


A.F.N. & A.W.: Com aportes psicanalíticos, linguísticos e da teoria da complexidade, dentre outros, você abre a possibilidade de oferecer novas matrizes para leituras do acontecimento político que se engendra na sociedade em midiatização. Mas por que deixa de fora a tradição linguístico-pós-saussereana, pelo menos nos seus escritos mais recentes?

J.L.A.P.: Jamais deixei de lado a tradição linguística. Aí se coloca a conjugação entre Laclau, Freud e Lacan, além da semiótica. Eu falei em psicanálise ao responder a primeira pergunta, mas não desenvolvi isso com vagar. Ao lado da teoria do discurso, da teoria da circulação, da semiótica tensiva e das paixões, a psicanálise é imprescindível, porque o capitalismo comunicacional para operar teve de liberar as paixões. Isso está muito bem desenvolvido num livro de Isleide Fontenelle, da Editora FGV, Cultura do Consumo. Sem essa liberação não há cultura de consumo nessa terceira fase do capitalismo. Só que a liberação das pulsões conduz a uma reação por parte de setores mais assustados com essas liberdades e essa reação pode ser menos ou mais conservadora. Ela está por exemplo localizada num pessedebismo de centro-direita ou numa extrema-direita ligada aos evangélicos.

A psicanálise nos permite tratar desse circuito dos afetos sob outra perspectiva, ao lado da semiótica, na medida em que esse movimento de liberação de pulsões tensionado pela reação fundamentalista, produz muito sofrimento social, que em geral é tratado com medicamentos. Do ponto de vista da comunicação poderíamos dizer que a sociabilidade desse capitalismo comunicacional tende a ser a de uma montagem perversa, ou seja, que convoca os neuróticos a buscarem montagens perversas. Eu tratei disso num texto que será publicado na revista Matrizes e foi apresentado originalmente, em uma versão menor, num congresso de psicanálise na Islândia. De qualquer modo, de um lado, temos os discursos enquadradores, de outro, os percursos passionais, e ambos são estudados por teorias pós-estruturalistas.



IDENTIFICAÇÃO DO ENTREVISTADO


José Luiz Aidar Prado. Doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), Brasil. Mestrado em Engenharia Civil pela Universidade de São Paulo (USP, 1988). Graduou-se em Filosofia pela USP (1988) e em Engenharia Civil na mesma universidade (1978). Pesquisador 1-A do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil. Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Coordenou o projeto de pesquisa: A invenção do Outro na mídia semanal -construção de um banco de dados hipermidiático e Regimes de visibilidade em revistas (www.pucsp.br/pos/cos/umdiasetedias). Éditor da revista Galaxia. Atua na área de Comunicação, com ênfase em Teoria da Comunicação, Estudos Discursivos de Mídia, Políticas do acontecimento e Comunicação e psicanálise. Em seu currículo Lattes os termos mais frequentes na contextualização da produção científica, tecnológica e artístico-cultural são: Comunicação, Discurso, Globalização, teoria da comunicação, crítica, mídia, jornalismo, mídia semanal, Política e Semiótica. Publicou, além dos DVDs e os livros Convocações biopolíticas dos dispositivos midiáticos (Editora da PUC-SP, 2013) e Habermas com Lacan (Editora da PUC-SP, 2014), além de coletâneas e artigos científicos. É co-organizador, com Vinicius Prates, do livro Sintoma e fantasia no capitalismo comunicacional (Estação das Letras e Cores, 2017).


Artículo publicado en acceso abierto bajo la Licencia Creative Commons - Attribution 4.0 International (CC BY 4.0).




1 Nota del editor. Fernando Haddad. Político brasileño del Partido de los Trabajadores (PT). Ministro de Educación durante las presidencias de Luis Inácio Lula Da Silva y Dilma Rousseff. En 2018, luego de que Lula fuera inhabilitado para participar de las elecciones, fue candidato a presidente.

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